O GAUCHÊS NA CONVERSA
VAI GRAXA AÍ?Nessas muitas andanças que fiz por esse mundão afora e adentro, um dos períodos em que mais descobri costumes e culturas diferentes, foi quando de minha estada em Porto Velho, Capital de Rondônia, localizado no Norte do país, divisando com a Bolívia.
Para quem pensa que aprender um idioma diferente é muito difícil, precisa dar uma volta por esses rincões sem fim do nosso Brasil e vai descobrir que somos uma Nação com muitas diferenças culturais, especialmente no que se refere a expressões populares.
Não estranhe se alguém convidar para ir a um “piseiro”. Isso é, tão somente, um convite para ir à balada popular.
Agora, tem que se preocupar mesmo é com o “carapanã”, da família dos culicídeos, a tal muriçoca, afinal, dengue mata e o clima da Região Norte, com seis meses de chuva intensa e seis meses de estiagem, é altamente propício para a proliferação de toda espécie de mosquito, especialmente o Aedes Egiptus e Aedes Albopictus, que também são transmissores da mais recente chicungunya. Falar esse nome já dá agonia.
Os sulistas menores de 18 anos que pedirem cervejinha serão autuados, conforme a lei, por tentar comprar bebida alcoólica. Só que não!
Constrangimentos à parte, cervejinha e cacetinho são usados para denominar o pão francês no Rio Grande do Sul, especialmente na grande Porto Alegre. O primeiro é o pão tradicional e o segundo tem um formato mais arredondado. Ambos são feitos com a mesma massa. Ah! E não se esqueça de pedir pão-de-sal no Cerrado goiano.
No açougue sulista é comum pedir guisado e chuleta. Mais para o norte, pede-se carne moída e bisteca. Se insistir no pedido, o cliente sai sem o proteínico ingrediente do estabelecimento.
Chuleta, ou bisteca
Outra coisa que não existe nas Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste é a torrada feita com pão, queijo e presunto no grill. Por essas bandas é mixto-quente. E ali no meio do caminho entre Porto Velho e Ariquemes, os rondonienses e visitantes podem apreciar o famoso Xis-caipira, feito com pão francês e linguiça. Pasmem! No Restaurante Castelinho de beira de estrada é o prato principal.Enquanto os lá de cima do mapa tentam comprar um zíper, os dali pelo meio, especialmente Brasília usam o nome original fecho éclair. O Gaúcho resume num simples fecho.
Há quem diga que poucos entendem o que significa uma pisadura como decorrência de uma pechada. Calma ai! Isso é tão natural num acidente de carro. A física explica: Pechada trata-se de um encontro, ou um choque entre dois corpos em movimento e pisadura é um machucado, uma lesão. Então não estranhe se alguém disser “Cuidado para não te pisar!” e “A gente se pecha por aí!”.

Se alguém pensou que esta que vos escreve nunca pagou mico, proporcionado pela ignorância diante da diversidade de culturas proporcionada pela grandeza quase infinita de nossa Pátria amada, está redondamente equivocado. Muitas destas descrições que acabo de fazer tiveram uma historieta engraçada, no mínimo curiosa.
É o caso da minha secretária Marina. “Deus o livre e guarde!” para os católicos e “Misericórdia!” para os evangélicos, mas nunca se chama a empregada doméstica de empregada. Ela é secretária! E não se fala mais nisso...
Certa manhã, entreguei para minha secretária um frango inteiro para que preparasse umas de suas delícias da culinária. Interessante era que ela conseguia fazer de um ovo frito um prato especial.
Juntas, abrimos o lacre plástico que envolvia o frango. Percebi que era um frango muito gordo. Então, pedi-lhe que retirasse a graxa.Nesse momento, séria e com olhar espantado, Marília pergunta: graxa? Foi então que percebi que ela pensara qualquer besteira... Epa! Eu não expliquei direito. Marina, morena Marina não se pintou de graxa de sapato. Minha secretária, com sinais claros de afro-descendência teria me interpretado mal? Ainda bem que não... Quem pensou besteira fui eu.
“Poh! Dona Janete! Graxa aqui no Norte é a de sapato. A do frango é gordura!”.

Ditado vai, ditado vem, um tantão de coisas que vamos aprendendo na escola da vida para que possamos nos adaptar ao meio em vivemos para não interferir na normalidade do cotidiano de um determinado local e de pessoas que, independente das diferenças, podem se tornar verdadeiras amigas e estarão sempre “rentes que nem pão quente” para auxiliar os “estrangeiros”.
Do protótipo: "MEU VELHO ME CONTOU" de Janete Fiorenza (Copyright)






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